Thomás Antônio Burneiko Meira
Candomblé; Etnografia; Simetrização; Não-Humanos; Multiplicidades.
Na presente tese, contemplo o Ilê Asé Azun Dan, um terreiro de candomblé localizado, hoje, na cidade de Ribeirão Pires, região sudeste da metrópole paulistana, e onde fui iniciado no culto das deidades “afro-brasileiras”.
Inspirado em certa experiência pessoal, vivida durante uma consulta oracular, na qual o espírito do fundador dali – falecido em 1994 – me convocou para estudar e escrever sobre a história da comunidade, meu intuito, aqui, remeteu à confecção de um texto etnográfico sob proposição dita “simetrizante”.
Encarei o termo como a necessária cautela tomada pelos antropólogos na suspensão dos pressupostos e explicações científicas – criados na realidade acadêmica –, para se limitarem às descrições do mundo que pretendem honrar, e segundo os seus próprios fundamentos. Da adoção dessa postura espera-se despontar criações conceituais legítimas não apenas nos seus coletivos de origem, mas igualmente passíveis de confronto e desestabilização do arcabouço antropológico, prioritário no desequilíbrio dos poderes implicados na produção das ciências.
No âmbito local, incidi a manobra sobre os seres incorpóreos, deslocados, pois, das “crenças” – derivadas, sempre, de alguma outra base mais “real” –, assumidos, então, na sua autonomia e no protagonismo cabidos; ao fazê-lo, as relações, deles, com as pessoas-humanas – na história, nos atuais processos religiosos e no incerto futuro decorrido de trâmites sucessórios – incorrem nas concepções formadas de lógicas permeadas das “multiplicidades”.
Essas, fundamentais sobre como querem ser entendidos, e potentes no rever dos divisores clássicos, rígidos, do pensamento antropológico – tais quais “natureza” e “cultura”; “verdade” e “representação”; “indivíduo” e “sociedade” etc. –, insinuados, no texto, em virtualidade.